terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O olhar do Kassab - crônica em três atos


Para Paula Ribeiro Iauch

Primeiro ato
Ontem, por acaso, flagrei o momento em que uma viatura da Rota parou numa esquina dos Campos Elíseos para vistoriar três moradores de rua que passavam na calçada. Um deles levava um saco com badulaques e pude ver com nitidez seu olhar atônito ao tentar explicar para os policiais que eram objetos pessoais ou algo que o valha, e não fruto de roubo. Cena recorrente na região, mas que assume uma dimensão trágica e real quando a presenciamos.
Não esperei para ver o desfecho do episódio, embora saiba que quase sempre resulta em reprimendas enérgicas, humilhação, violência covarde e, em caso de suspeita, um passeio no camburão até a delegacia.

Segundo ato
Há coisa de um ano, a caminho do trabalho, passava ao lado da carcaça de um carro abandonado na Rua Albuquerque Lins, ao lado do Teatro São Pedro. Há dois meses, percebi que havia gente lá dentro, apesar de os vidros do carro terem insulfim. Mais alguns dias passando ali e entendi a situação. Um casal de moradores de rua, com duas crianças pequenas, passou a usar a carcaça do carro como moradia. O carro estava estropiado, mas os bancos estavam conservados.
Como passava sempre de manhã, às vezes encontrava a mulher sentada no banco do carona, com a porta do carro aberta, fumando. Era uma mulher de uns trinta anos, mas que pareciam sessenta diante do sofrimento que adivinhava em sua face encarquilhada. Enquanto ela fumava, as crianças descobriam graça no entorno eminentemente urbano da rua.
Algumas vezes vi seu companheiro, um homem igualmente envelhecido, dando a primeira tragada no cigarro, sentado na escadaria lateral do teatro. Pelo ar dos dois, imaginava que dormissem no carro à noite, fazendo do banco de trás local de descanso e sexo. As crianças, deduzi, deviam dormir nos bancos da frente.
Durante o dia, sabe-se lá o que o casal fazia. Pelos trajes que ostentavam, não acredito que tivessem empregos formais. Alguns transeuntes, sensibilizados sobretudo com as crianças, às vezes lhes deixavam lanches ou quentinhas. Cheguei a ver uma senhora entregando o que entendi ser uma mamadeira para a mulher.
Há duas semanas, ao dobrar a esquina do teatro, deparei com a carcaça do carro completamente destruída pelo fogo. Alguém deve ter jogado uma grande quantidade de líquido inflamável de modo a não sobrar nada do carro. E, de fato, o que eu via agora era apenas a estrutura de aço do carro, a parte que o fogo não consumiu. Do casal e de seus dois filhos, nem sinal.

Terceiro ato
Ontem, entre as notícias frívolas do carnaval, vi uma foto do prefeito Gilberto Kassab posando ao lado de três foliãs no sambódromo. O olhar das moças brilhava de emoção por estarem ao lado do alcaide da cidade. Alcaide que, há três semanas, doou um enorme terreno na região da Cracolândia para que o ex-presidente Lula construa um surreal instituto que levará seu nome. Um pequeno afago com o patrimônio púbico com vista a um espúrio conchavo político.
Passei o dia pensando no olhar das foliãs. E no olhar do Kassab, que não brilhava menos do que o olhar das meninas. Aqueles olhos azuis, falsamente infantis, representam muita coisa. Simbolizam o deslumbramento fútil dos que estão no poder. E a mediocridade da época em que vivemos. Simbolizam sobretudo a insensibilidade dos governantes com a sorte daqueles que não existem. Daqueles que apenas vivem. Como vivem os cães sem dono, os ratos, as baratas.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Ciclos - crônica


 Nada mais saudável do que o fim de um ciclo e o início de outro. E a intuição, velha companheira de jornada, não nos deixa enganar. Sempre sabemos quando estamos fazendo a passagem. Podemos até não agir de imediato conforme a nova disposição que nos move, mas no fundo sentimos que algo ficou perdido no tempo, não raro para sempre. E que algo está por vir.
Houve um tempo em que meus interesses giravam em torno do futebol. No final dos anos 1970, premido pelas perseguições que sofria na escola (claramente bullying), enfiei na cabeça que seria jogador de futebol, uma forma de ir à forra contra os que me molestavam na sala de aula. Larguei tudo, família, escola, amigos, e fui para Curitiba, morar na casa de um tio e treinar no infanto-juvenl do antigo Pinheiros (atual Paraná Clube).
A empreitada tinha tudo para dar errado, e deu. Fiquei ainda um tempo zaranzando por Curitiba e Paranaguá até voltar para São Paulo, arranjar um emprego de office-boy e retomar os estudos. Era um novo ciclo que se anunciava, mas embutido nele havia um ciclo maior, que me acompanharia pela vida afora: o da leitura e escrita.
Os ciclos possuem essa característica: para passar de um a outro é preciso esgotar todas as possibilidades e ilusões do ciclo que termina. Em outras palavras, para fazer a travessia é preciso experimentar uma certa crise pessoal. Nesse sentido, assumir que um ciclo terminou requer humildade. É aquele momento em que reconhecemos, num ato de absoluta sinceridade, que nossa vida está seguindo um rumo equivocado, que precisamos interpretar com objetividade e sabedoria os recorrentes fracassos; que, enfim, está na hora de rever os conceitos. E mudar.
O ciclo da leitura e escrita foi tão forte para mim que, terminado o ensino médio, decidi que não precisava fazer faculdade. Para que faculdade, me perguntava, se eu lia os grandes autores da literatura mundial? Para mim, era o que bastava. Foi a época do mergulho radical na literatura russa, com seus romances ferozmente impregnados de tragédia e paixão. Eu não queria outra atmosfera naquele momento da minha existência.
No entanto, alheios à nossa vontade, dialeticamente os ciclos se sucedem, se intercalam, se contradizem, se sobrepõem, fazendo-nos superar nosso entendimento do mundo e forçando-nos a seguir em frente. Isso é o que, depois, iremos chamar de “vida”.Ou de “a minha vida”. De modo que fui vivenciando os ciclos que a vida me apresentava. O de jovem recém-casado. O de jovem pai. O de pai coruja. O de filho maduro. O de filho sem pai e mãe. O de ouvinte de MPB. O de editor. O de escritor. O de soropositivo. O de estudante de jornalismo. O de homem separado.
Como no mito do eterno retorno do Nietzsche, inexoravelmente as coisas voltam. E nos últimos seis anos, morando sozinho, vivenciei novamente o ciclo do namorado que fui um dia, com todos os rituais da circunstância: o flerte, o pedido de namoro, a apresentação aos pais da garota (alguns deles da minha idade ou até mais novos), as descobertas, o estado de graça, o amor, que também é feito de conflitos e desavenças. E depois o caminho inverso. O melancólico caminho inverso. Eterno retorno.
Esta semana vivi o fim de um namoro, o terceiro nesses seis anos em que moro sozinho. Mas não foi somente o fim de um namoro. Foi o fim de um ciclo. É tão concreto para mim que tenho vontade de rir da minha sagacidade em percebê-lo. Não há o que lamentar. Nada mais saudável do que o fim de um ciclo e o começo de outro. Na vida, como na natureza, nada se perde, tudo se transforma. E, pelo menos no meu caso, os amores vão se transformando em amizades. Amizades especiais e perenes.
Nada se perde.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Parabéns, tudo de bom! - crônica


Adriana se vira de lado na cama. Vê o marido com o smartphone em punho.
– O que está fazendo, Murilo?
– Estou no face, amor.
– Mas a essa hora da manhã!
– Hoje é meu aniversário, esqueceu?
– Claro que não, né.
– Pois é. E hoje eu me impus uma missão.
– Missão?
– É. Quero ver quem vai me mandar mensagem de parabéns e quem não vai. Vou descobrir quem é meu amigo de verdade. Depois vou catalogar tudo e ver o que fazer.
Adriana puxa o rosto do marido para si:
– Murilo, você pirou?

À uma da tarde, Adriana tem a certeza de que o marido não está num dia bom:
– Murilo, dá pra largar esse maldito celular um pouquinho e vir almoçar?
– Só um minuto, querida, chegaram mais duas mensagens. Da Raquel Gontijo e da Luciana Bezerra. Gosto delas. Mas aposto que a falsona da Berenice não vai me mandar nenhuma mensagem. Ela sabe que hoje é o meu níver, mas vai fazer questão de esquecer. Ela sempre dá essas mancadas.
– Murilo, o almoço está esfriando...
– No aniversário dela eu enviei uma mensagem bacana logo de manhã, de cinco linhas...
– Você fez a sua parte, oras... Agora vem comer, por favor...
– Olha só quem acabou de enviar os cumprimentos. Tudo bem que foi só um “parabéns, tudo de bom!”, mas pelo menos ela lembrou...
– Quem?
– A Ana.
– A Ana Renata? Ou a Ana Rebeca?
– Não, a Ana Júlia.
– Pfff...
– Que foi?
– Tô vendo que você ficou todo contentinho com um simples parabéns da sua ex.
– Nada a ver, more, não vai ficar com ciúmes logo hoje, né... Pelo menos ela lembrou. A Maria Leocádia, que trabalha dez horas por dia do meu lado, até agora nada.
– Mas ainda é uma da tarde, criatura! Não sei o que deu em você hoje. Não sei por que essa neura toda. No ano passado você não estava assim.
– No ano passado eu não estava no facebook. Mas agora que estou, decidi que só vai ficar na minha página quem for meu amigo de verdade.
Adriana solta mais um “pfff”, mas parece que o Murilo não ouve.

Ás cinco da tarde, Adriana desperta de um cochilo com os gritos do Murilo:
– Ganhei meu dia, Adri! Ganhei meu dia! – exulta o marido.
– O que foi dessa vez, meu Deus?
Ele estende o celular na frente da mulher:
– O Perón, meu gerente! Acabou de me enviar os parabéns! Sabe o que isso significa, Adri?
– Hum?
– Que aquele aumento vai rolar...
– Não viaja, Murilo...
– Ele me considera, amor. Sempre senti isso. Senão não mandava a mensagem. Aposto que para o Silvano ele nem mandou mensagem de aniversário...
– O aniversário do Silvano é no mês que vem...
– Como você sabe?
– Não foi você que disse que o Silvano é de escorpião? Ele deve fazer aniversário em novembro. Estamos em outubro...
– Eu disse isso?
Disse.

Às sete, Murilo já tem um mapa mais definido da situação. Entre mais de cinquenta cumprimentos, estão lá as mensagens da Sônia (“mandou só pra não ficar chato...”), da Ana Renata, da Ana Rebeca ("essa é amigona mesmo..."), da Cibele, do Rubão e da Maria Tereza.
Berenice mandou uma mensagem afetuosa de quatro linhas no fim da tarde. Já da Maria Leucádia, nem sinal de cumprimento. Murilo só está esperando dar meia-noite para deletá-la da sua página. Vem pensando mesmo em fazer isso. Só precisava de um pretexto.
– Imagina, ainda outro dia ela jantou aqui com a gente... Ingrata! – resmunga consigo mesmo.
Remói por mais de uma hora aqueles pensamentos cheios de fel até que não se contém. Procura a página da Maria Leucádia, vai no item “excluir amigos” e deleta-a a ex-amiga sem remorsos, como quem dá um piparote numa mosca.
– Pronto! De agora em diante, nada de amigos falsos na minha vida! Only good vibe!
Mal pensa isso, a campainha toca. Como Adriana estava no banho, ele mesmo abre a porta. Dá de cara com Maria Leocádia, que, com um presente nas mãos (provavelmente um livro ou um DVD) e um sorriso indefensável nos lábios, lhe diz:
– Feliz aniversário, querido!
E o puxa para um abraço apertado.

sábado, 7 de janeiro de 2012

No café - crônica


No café discreto em que estou – tão discreto que me sinto à parte da vida –, um casal com sua filha deficiente se sentam na mesa ao lado. O homem e a mulher aparentam a mesma idade, em torno de quarenta anos. A menina não deve ter mais do que quinze.
Não tenho conhecimento médico para identificar o problema que acomete a garota. Seu rosto apresenta um afundamento lateral que compromete estética e funcionalmente a boca e o olho esquerdo. Vejo cicatrizes de contornos irregulares, na certa tentativas da medicina de amenizar o impacto que aquela face causa em quem a contempla.
A garota traja tênis all star, calça jeans com rasgos calculados e uma camiseta com o rosto da Amy Winehouse. Na testa, uma franja coquete rente às sobrancelhas. Pelo contexto da conversa, deduzo que a menina cursa o ensino médio.
Percebo que o rosto da garota chama a atenção de imediato. O olhar das pessoas, tão logo o divisam, voltam-se para verificar a natureza da deformidade. Passado o choque, a reação fica por conta da discrição de cada um.
Chama minha atenção a abnegação dos pais para que a filha sofra o menos possível os efeitos sociais de seu infortúnio. O que se apresenta a mim naquele café é apenas a curta sequência de um pungente filme sobre devoção e entrega. Essa abnegação fica patente quando a garçonete se aproxima para anotar o pedido. Observo que a garota não faz cerimônia e, com uma certa graça, pede algo que a garçonete não entende.
–Desculpe... – a moça hesita, entre simpática e aflita, e volta-se num olhar súplice para os pais.
O pai compreende o embaraço:
– Ela quer saber se vocês servem bureka... – ele diz, num sorriso constrangido, que, presumo, afeta desconforto, como se a garota se expressasse num dialeto desconhecido e a ele coubesse o papel de tradutor-intérprete.
– Desculpe, senhor... – a garçonete tartamudeia, ante o olhar ansioso da garota.
Antes que o pai explique à garçonete o que é bureka, ao seu modo a garota tenta explicar seu pedido, mas é interceptada com rudeza calculada pelo pai (“Eu explico pra ela, Muriel...”).
– Desculpe, moça, – volta-se o pai – a gente sabe que não é em todo lugar que tem bureka.
E, voltando-se para a filha, explica a ela que não servem bureka ali.
Muriel faz um muxoxo de decepção. E sem perceber a aflição da garçonete, logo se refaz e dá um pulinho na cadeira, voltando os olhos para o cardápio.
– Nós já faremos o pedido – diz então o pai, um modo de liberar a moça e ganhar tempo para a escolha da filha.
O olhar do pai quase cruza com o meu. Disfarço que os observo. Na verdade fujo daquele olhar.
Gosto de imaginar as histórias silenciosas que correm, como rios subterrâneos, por trás das conversas que ouço. Tudo levado a termo de forma discreta, sem nenhum propósito de julgamento.
A garota age como se não tivesse as limitações de comunicação que tem. E a atitude do pai, de servir de intermediário, deve ser rotina na vida daquela pequena família. Uma terna compaixão começa a tomar forma dentro de mim.
A imagem me remete aos passeios que dava com minha filha, ao tempo em que ela era pequena, com menos idade ainda do que Muriel. Um período que se apresenta comprimido na memória, como se tivesse sido de apenas alguns meses.
Em minutos a garçonete volta para anotar o pedido. O pai mais uma vez procura facilitar as coisas, e faz um arrazoado do que cada um vai querer:
– Dois cafés puros, um chocolate médio, duas baguetes com manteiga e um croissant quatro queijos, por favor.
Refeita de sua aflição, a garçonete anota tudo. E antes que se retire, ouve a única palavra dita por Muriel que não precisa ser traduzida pelo pai:
– Obrigada.
Desvio de vez meu olhar e tento voltar aos pensamentos que me tomavam antes de notar a presença do casal. Não consigo, porém. Devia estar imerso em algo sem importância. Um desses pensamentos que nos fazem ficar horas e horas num café sem fazer nada e depois evaporam da mente para nunca mais.
De Muriel e de seus pais abnegados, contudo, eu nunca vou esquecer.

sábado, 24 de dezembro de 2011

A semente abandonada - crônica


Tenho na gaveta o projeto de um livro que jamais levarei a cabo. Trata-se da retomada de uma crônica do escritor Paulo Mendes Campos, chamada “A marquesa saiu às cinco horas”, na qual o cronista mineiro imagina como cada conhecido seu ou pessoa famosa de sua época falaria uma frase do escritor francês Paul Valery, justamente “A marquesa saiu às cinco horas”. O mote da crônica era a propósito de uma afirmação de Valery segundo a qual, num momento de bloqueio criativo, ele seria incapaz de escrever uma frase simples como essa.
Já brinquei muito com a ideia do Paulo Mendes Campos. Na editora Ática, em 2001, coloquei a frase na boca de todos os funcionários do editorial na época. Essa crônica fez muito sucesso entre meus colegas de trabalho, tanto que frequentemente alguém das antigas me pede para enviá-la. Quando muito, virou o registro de uma certa época, em que o “espírito corporativo” ainda não havia invadido o ambiente das editoras.
Algum tempo depois, apliquei a brincadeira também à minha turma de jornalismo da faculdade, incluindo os professores. O sucesso foi o mesmo, com alguns alunos fazendo questão de criar a frase dos amigos que lhe eram mais próximos. Outro dia, vasculhando o Google, encontrei o arquivo com essas frases lá, arquivo que eu próprio havia perdido.
Minha ideia agora, ao querer transformar a brincadeira em livro, era atualizar a crônica imaginando como cada personalidade do meu tempo diria a frase do escritor francês. No período em que me entusiasmei com a ideia, fui atrás dos direitos autorais da crônica, coisa sempre complicada. Paulo Mendes Campos faleceu nos anos 1990 e suas crônicas são publicadas por várias editoras. Sem contar que, de certo modo, a ideia original é do autor da crônica, não minha. Eu teria de negociar esse item com a família do cronista, o que por vezes pode ser também complicado. Com o tempo, abandonei a ideia. Não sem antes rabiscar uns esboços, que aqui reproduzo, com a indicação das personalidades que imaginei proferindo a famigerada frase. São, de certa forma, o embrião abortado de um livro não escrito, ou a semente abandonada de um fruto que não vingou:
Faustão: “Ô loco, meu! Não é que a marquesa saiu mesmo! Não, volta esse vídeo! Meu! Olha o tamanho da buzanfa da marquesa! Pra sair assim às cinco horas é só pra enfiar o pé na jaca mesmo!”
Silvio Santos: “Mas... hahai... Maria, vem cá, Maria... Oooi! Tá nervosa, Maria? Não tá nervosa? Então responda, Maria, valendo um milhão de reais: a que horas saiu a marquesa, Maria? Vamos lá, Maria, tem dez segundos pra responder. Às quatro? A marquesa saiu às quatro horas? Silêncio no auditório! Tem certeza, Maria? Posso tirar a resposta? Oooooi... A resposta está e....rrada!”
Zagalo: “A marquesa saiu às cinco e chegou ao Maracanã às oito da noite. É só fazer a conta: cinco mais oito dá treze. Tô falando! É Brasil na cabeça!”
Marília Gabriela: “Mas, vem cá, me explica direito, como é que se convive com isso? De repente a marquesa sai às cinco e tudo bem? É isso que não entra na minha cabeça!”
Jô Soares: “Sem querer interromper, e já interrompendo, vamos ver o vídeo da marquesa saindo às cinco horas... Willy, tá no ponto? ... Que maraviiiilha!”
Novela das oito:
“ ‘- João Estêvão, eu tenho uma revelação a fazer!’
‘Fale, Ingrid. Você sabe que eu detesto rodeios...’
‘É tão difícil pra mim...’
‘Seja o que for, fale, Ingrid. Não deve existir segredos entre nós.’
‘-É que...’
‘Por favor, Ingrid, fale!’
‘... a marquesa...’
‘Por tudo o que é mais sagrado, o que é que tem a marquesa...’
‘... me perdoe, João Estêvão... a marquesa saiu às cinco horas...’
‘O quê!!!’ ”

sábado, 10 de dezembro de 2011

A paixão, esta pantera - crônica

Para Nathália Furiati

Uma antiga colega de trabalho, com quem às vezes pegava carona e a quem confidenciava minhas poucas mas sempre complicadas incursões no campo amoroso, costumava dizer que, comigo, se fosse tudo certinho, não teria graça. Eu respondia que não era eu quem procurava as situações insólitas em que me metia, as coisas simplesmente aconteciam. E se esta explicação não parecia plausível – e desconfio mesmo que não parecesse –, eu respondia por fim que, afinal, não temos controle sobre nossas paixões. Pelo contrário, elas é que nos controlam. Quando a paixão nos atinge, não importa o lugar, o dia, a hora, a cotação do dólar, se está frio ou calor – você simplesmente embarca, para o bem e para o mal.
Minha amiga, pisciana vocacionada, não aceitava a minha generalização. Retrucava dizendo que uma afirmação como esta só poderia sair da cabeça de um libriano como eu. Os librianos – ela enfatizava – vivem em “estado segundo”, uma maneira cabalística de dizer que nos apaixonamos como quem pega uma gripe. Com o adendo de que, no meu caso, além da paixão contumaz, eu sempre trilho caminhos tortuosos.
De fato, amores impossíveis, ou com grandes obstáculos no caminho, há algum tempo viraram a minha sina. Não queria que fosse assim. Mas é. E de tanto viver essas paixões inviáveis, criei uma espécie de curiosidade obsessiva por casos de amor em que há grande dificuldade para que a paixão seja consumada. Desde Shakespeare e até antes dele, a ficção está repleta de amores impossíveis. É disso, aliás, que vivem em parte o cinema e a literatura. A figura do anti-herói, contra o qual tudo parece conspirar – a distância, a etnia, a cor da pele, a idade, o status social, o repúdio da família – para que, no final, ele supere os obstáculos e termine junto de sua amada, é o mote que não pode faltar a qualquer história, mesmo que não seja romântica.
Mas é nas histórias verídicas que mais me comprazo ou me consolo. Há casos e casos, mas gosto de citar três. A ex-modelo e colunista Danuza Leão conheceu o jornalista Samuel Wainer na prisão, ele com 41 anos, ela com 19. Danuza foi visitá-lo por mero acaso junto com um amigo e saiu de lá apaixonada. Assim que o jornalista deixou a prisão, meses depois, casaram-se e tiveram três filhos.
O cavaleiro Doda Miranda foi acusado de se aproximar da milionária Atina Onassis somente por causa de sua fortuna. Doda sofreu muito com os comentários da imprensa e de amigos assim que o romance se tornou público e se defendia dizendo que qualquer pessoa que se aproximasse de Atina, mesmo por amizade, seria acusada de estar de olho em sua fortuna. Ele sabia o que dizia. Estava tão somente apaixonado, pouco se lixando para a fortuna que Atina herdara do pai. O tempo passou. Doda e Atina estão casados até hoje e nem a imprensa nem os amigos tocam mais no assunto.
Por fim, o caso mais explosivo. Em 1992, a então mulher do cineasta Woddy Allen, a atriz Mia Farrow – eles eram casados, mas não moravam juntos – encontrou no apartamento do diretor várias fotos da filha adotiva de Farrow, Soon-Yi, de 18 anos, nua na cama de Allen. A atriz tornou o caso um escândalo mundial, a imagem de Woody Allen, então com 57 anos, foi consideravelmente arranhada, o diretor de A rosa púrpura do Cairo perdeu a causa na justiça, mas no fim prevaleceu o sentimento que ligava Allen à garota: uma paixão incontrolável. Eles se casaram em 1998 – ela com 25 anos, ele com 63 –, adotaram duas garotas e vivem juntos até hoje, sendo considerados um dos casais mais discretos do jet set. Discretos e apaixonados. Recentemente flagrados numa exposição de Pablo Picasso em Paris, Woody Allen afirmou que pretende passar o resto de sua vida ao lado de Soon-Yi.
Não diria que os personagens desses três casos estivessem atrás de histórias tortuosas. Acontece que a paixão, esta pantera, é uma força poderosa.

domingo, 27 de novembro de 2011

Fantasmas - crônica

Quando ficamos mais velhos, os fantasmas começam a aparecer. Fantasmas do bem e fantasmas do mal, sem que vá aqui qualquer juízo de valor. Quando se entra na chamada idade provecta, tanto os fantasmas do bem como os do mal são bem vindos.
Não preciso esclarecer que em geral aparecem em sonhos, em curtas metragens sem o menor sentido, mas que, a gente sabe, guardam um sentido coeso em sua aparente falta de nexo. Os diretores desses curtas, se é que são dirigidos, parecem cultivar uma predileção natural pelo surrealismo e pelo nonsense, afinal, trata-se de sonhos. E quem disse que o surrealismo e o nonsense não nos dizem mais coisas do que o realismo e o naturalismo?
Outro dia acordei assustado e emocionado. Havia sonhado com uma conversa na cozinha da minha casa de infância, como muitas que presenciei em menino. Estavam ali gente viva e gente morta. Gente de um passado remotíssimo e gente do meu dia a dia atual. E – talvez o que mais me tenha emocionado no sonho –, gente que não se conheceu.
Estavam ali, por exemplo, minha mãe, que faleceu em 1985, e minha filha, nascida em 1989. Não digo que as duas conversassem durante aquela nebulosa aparição, na cozinha de azulejos azuis e cerâmicas vermelhas que meu pai mandou colocar com o dinheiro de sua aposentadoria, em 1973. Não, elas não conversavam. Minha filha ainda era a garotinha ligada no 220 que corria pela casa. E minha mãe, a mulher de olhar atormentado pelo câncer que a levaria, uma das imagens que me ficou dela. Mas só de imaginá-las juntas, no mesmo ambiente, com outros convivas que por vários descaminhos do destino jamais poderiam estar juntas, só isso já valeu a emoção que me percorreu do coração às têmporas.
Na manhã do dia em que tive esse sonho, enquanto sorvia o café e mastigava o pão com manteiga num balcão anônimo de padaria, agradeci a esse imaginário diretor pelo script da madrugada. Me fez acreditar, ainda que por minutos (a gente nunca sabe a extensão de um sonho), que a vida vale pelo que vivemos. Pelo que foi e pelo que poderia ter sido.

sábado, 6 de agosto de 2011

Saio da Ática para entrar na história - crônica em dois atos

Primeiro ato.
Duas semanas antes de você ser demitido, lhe oferecem um “desafio”, como gostam de dizer. Dizem que é a sua grande oportunidade. Que você é “um cara competente”. Que “possui repertório”. O “homem multimídia do editorial”. Que é “um cara legal”. Enfim, a pessoa talhada para aquele desafio. Antes de deixar a sala, elas o abraçam. “Boa sorte”, diz uma. “Vai dar tudo certo”, diz a outra. Agora você precisa conversar com sua futura gestora, inteirar-se da mudança.
Você, um funcionário dedicado, sai da sala e vai pegar um café para tragar direito o que acabou de ouvir. Tenta se contaminar do entusiasmo das suas superiores, mas no fundo mantém uma providencial reserva. Sabe como as coisas funcionam por ali. Está há catorze anos sem uma promoção. Culpa sua, decerto. Em vez de fazer conchavos, de se esmerar na arte da bajulação, de se fazer onipresente na sala das chefias, você se preocupava tão somente em fazer bem o seu trabalho.
Você toma o café, passa no toillet e vai conversar com sua futura chefe. É uma mulher afável, e você se sente à vontade para fazer a pergunta que não quer calar em sua mente. A mudança envolve promoção? Envolve aumento de salário? Não, não envolve, ela diz. Envolve o quê, então? Ela então explica o que a mudança envolve.
A mudança consiste em transferir-se do quinto andar, onde você tem o seu ambiente, para o terceiro, um andar inóspito para você, repleto de gente de nariz empinado, que tem o péssimo hábito de não cumprimentar e adora dizer que foi ao show do U2, mas nunca leu Machado de Assis. Que adora usar palavras como viral, vibe, expertise, mas escreve coisas como “ancioso” ou “isso não tem nada haver”. Uma fauna humana com interesses bem diferentes dos seus e uma visão de mundo bem diferente da sua.
Você projeta o seu dia a dia entre aquelas criaturas. Sua autoestima não teria a menor chance. Em semanas você se sentiria um ser do pré-cambriano, para dizer o mínimo, remoendo sentimentos nada auspiciosos em sua alma.
A mudança consiste também em ser mandado por pessoas que têm menos experiência editorial do que você. Você até imaginou que, depois de tantos anos editando gente do calibre de Marilena Chaui e Gilberto Dimenstein, autores top da editora, você ao menos fosse coordenar alguma coisa. Mas não. Você não coordenará coisa alguma. Sentará numa mesa de costas para a sua chefe e terá pela frente uma produção irreal de 120 livros num prazo exíguo.
Você agrega mais esse dado ao seu rol de informações e por fim vai se aconselhar com funcionários que conhecem bem o setor para onde querem mandar você. Todos dizem a mesma coisa: “Não vá. Ali o cenário é instável e insano. As pessoas vivem querendo se jogar do viaduto”. Você se assusta. O dia termina e você vai para casa tentando se convencer de que, não obstante o que lhe dizem, vai tirar de letra. Afinal, você é um cara competente. Um cara legal. Possui repertório. O homem multimídia do editorial.
Enfim, amanhece. Nada como um dia após o outro com uma noite no meio. Tudo bem que não foi uma noite tranquila. Você acordou várias vezes de madrugada. Sentiu o coração acelerado ao lembrar que suas superiores aguardam sua confirmação. Mas agora você está na padaria de costume e toma o seu café com a alma apaziguada. Traz uma decisão dentro de si. Uma decisão que redime seu espírito e devolve a dignidade que você supunha em cacos. Quita suas pendências de orgulho próprio, suas inquietações profissionais perante você mesmo.
Você chega cedo ao trabalho. Vai até a sala da sua chefe e, diplomaticamente, diz que não aceita o que lhe foi proposto. Está bem onde está e não se sentiria bem no outro departamento. Duas semanas depois, você é demitido.
Segundo ato.
Esta crônica não é uma lavagem de roupa suja nem uma forma de remoer rancores. Estou bem e me sinto grato pelos dezessete anos passados numa das editoras de ponta do país. Ali concluí uma graduação e uma pós-graduação, pude dar à minha filha bons colégios e uma vida digna à família. Ali escrevi cinco livros e editei vários. E ali aprendi muito e fiz muitos amigos. A demissão de um emprego faz parte da vida, como a doença e a morte. Como também fazem parte da vida a alegria, a compaixão, a gratidão, o encontro, a epifania, a comunhão, a arte, a música, a literatura, o cinema, a alteridade, a amizade, o amor.
Quem me conhece sabe que, nos momentos limites, sempre fiz terapia com as palavras. Em 1998, ao me saber hiv positivo, escrevi um relato autobiográfico sobre o que é viver nessa condição. Um livro que foi bem adotado nas escolas e me permitiu conhecer um pouco do Brasil. Entre 2005 e 2009, em outro relato visceral, expus os tabus e preconceitos que cercavam uma relação amorosa em razão do hiv e da diferença de idades. Coragem nunca me faltou. Nem lucidez. Não poderia agora deixar de fazer mais uma terapia, dessa vez na forma de crônica, para assimilar melhor este momento de transição.
Meu caminho está nas palavras. Há alguns meses, já tinha resolvido me dedicar aos livros juvenis. Nada de livros polêmicos ou de escrever novamente sobre Aids, mas escrever para o público juvenil, com o qual tanto me identifico. Preciso de oxigênio. Sempre me vi como um menino, no melhor sentido que Fernando Sabino dava a essa palavra. “O menino é o pai do homem”.
Um novo emprego decerto virá, e eu me dedicarei a ele com o mesmo afinco com que me dediquei ao anterior. Mas o hábito da escrita regular veio para ficar. Escrever para jovens em idade de formação sempre me fez bem. Acho que, bem ou mal, é o que sei fazer de melhor. Aquilo que me dá mais prazer. Parodiando Getúlio Vargas, em sua carta testamento, saio da Ática para entrar na história. História em minúscula, no meu caso. Ou em caixa baixa, como se diz no editorial. Romances juvenis recheados de peripécias, aventuras, mistérios e saborosas descobertas.
Está tudo certo.
Samir, 4 de agosto de 2011

domingo, 12 de junho de 2011

trecho de "Todo menino é um rei"

"Assim que começamos a caminhar, lentamente como costuma ser num enterro, os pais da Corina foram se distanciando até ficar uns três metros na nossa frente. Ou nós é que fomos nos deixando ficar para trás. Me fez bem imaginar essa hipótese. O único problema é que o Marcelo também acompanhou nosso ritmo e ficou para trás junto com a gente. Logo percebi que aquele moleque com cara de sonso era mais esperto do que eu pensava.
O negócio agora era prolongar a conversa. Eu já procurava um assunto, quando ouvi a Corina dizer:
– Nunca tinha vindo nesse cemitério.
Não era o assunto que eu tinha pensado, mas estava valendo.
– E eu nunca entrei num – eu disse.
E não estava mentindo. Cemitério eu só conhecia dos filmes de terror. Não gostava nem de passar em frente. Nunca me esqueço do tremor que senti no dia em que um vendedor passou de porta em porta na minha rua oferecendo jazigos a prestação.
– Sério? – Corina pareceu se espantar. – Pois eu estive num cemitério uma única vez, há três anos. Foi no enterro do meu avô.
Eu me lembrava do velório do avô dela, seu Miguel, pai da dona Dirce. Foi um acontecimento muito comentado no bairro. Seu Miguel era militar. Diziam que tinha torturado presos políticos uns anos atrás. Eu não entendia bem o que isso significava. A única coisa que sabia era que seu Miguel era uma pessoa temida e respeitada nas redondezas. Mais até do que o Tito, que tinha uma fama mais ou menos parecida.
Naquele dia, quando cheguei em casa com a notícia da morte do seu Miguel, minha mãe disse uma coisa que não era muito comum ouvir dela:
– Esse vai pro inferno de cabeça pra baixo.
– O quê? – perguntei, pois tinha gostado da frase e queria que ela a repetisse.
– Nada, não, menino... Vai brincar, vai!
Muito tempo depois, comentei com meus pais sobre o que falavam do Tito e do seu Miguel na rua. Perguntei se era verdade. Meus pais nada responderam. Apenas disseram para eu nunca comentar sobre aquilo com ninguém.
No dia em que disseram isso, não deixei de perceber um certo medo neles. Um medo misterioso de alguma coisa que eu não sabia o que era, mas que me pareceu algo grave. E se eles me pediram para não falar com ninguém sobre o assunto, não seria com a Corina que eu iria falar daquilo naquele momento.
– Eu fui no velório do seu avô, mas não ao enterro – falei apenas.
– Tenho saudades dele – Corina disse de repente, quase como se falasse apenas consigo mesma. – Quando ia na casa dele, ele me levava na padaria e deixava escolher os doces que quisesse.
O assunto não era dos mais animadores. Pelo menos pra mim. Mas eu não podia demonstrar isso.
– Ele morreu do quê?
– Do coração. Teve um ataque fulminante durante o sono. Morreu dormindo.
– Bom, pelo menos não sofreu.
– Não, pelo menos isso – ela disse, depois deu um suspiro. – Ele morreu em paz.
Quando ela disse isso, voltei a pensar nas coisas que falavam de seu Miguel. Será que a Corina sabia dos horrores que falavam do seu avô? Fiquei tentado a perguntar, mas por fim segui o conselho dos meus pais e não disse nada. Acho que fiz bem."

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Semana de trote

Março de 2003. Início do ano letivo na faculdade Cásper Líbero. Segunda-feira. Os corredores estão movimentados. Os alunos se reencontram depois de quase três meses de férias. Trazem os semblantes leves, livres da preocupação com trabalhos, provas e seminários. O clima é de confraternização. Há uma profusão de beijos, abraços e olhares ávidos de novidades. Grupos se formam e se desfazem como por geração espontânea. O cheiro de cigarro impregna o ar do corredor.
Estamos na semana de trote. As aulas deviam ter começado há uma semana. Mas no Brasil, como em muitos países, é sagrado: os primeiros dias de aula são reservados à recepção dos chamados “bixos”. A diretoria tolera. Os professores respeitam. Os próprios bixos aceitam o trote como um rito de passagem necessário. Os cabelos raspados de improviso nos corredores da faculdade parecem conferir a eles o mesmo status que o primeiro beijo, o primeiro namorado ou namorada, o primeiro carro, a perda da virgindade, o primeiro emprego. Com o direito garantido a, no ano seguinte, na condição de veteranos, poderem aplicar as mesmas humilhações nos bixos que chegarem.
De onde estou, observo tudo com reserva. Além do caderno de 200 páginas com ilustrações do Dilbert, que uso desde o primeiro ano, trago comigo o livro do Elio Gaspari, A ditadura envergonhada, que peguei na biblioteca. Todos que me cumprimentam, ao reconhecerem a capa azul do primeiro volume, fazem referência à obra:
– Legal, você está lendo?
– Esse livro parece ser bom, não?
Faço que sim com a cabeça, embora ache o livro um pouco chato – uma enfiada de nomes de generais e de patentes militares, assunto pouco palatável. Mas concordo que é preciso saber como eles se articularam para atarantar por mais de duas décadas nossa já atarantada vida republicana.
Felipe me conta que lera os dois volumes nas férias. Jaime diz que pretende lê-lo em breve. Adriana também, assim que terminar um livro do Caco Barcelos. Sidney, por sua vez, mostra com entusiasmo a alentada biografia de Kurt Cobain que está devorando. Faço cara de conteúdo. Não sou muito versado em Nirvana. Meu último ídolo do rock foi Freddy Mercury. Devo estar defasado de há pelo menos uma década em matéria de rock. Mesmo assim, congratulo-o pela leitura. Biografias estão entre os meus gêneros preferidos.
Sou aluno do 2º JO D. Quero dizer, do segundo ano de jornalismo, turma D. Agora, um veterano. Mas, para mim, todo aquele ritual a que assisto entre curioso e contido não faz muito sentido. Não entendo muito quando Klinger e André Tadao, meus colegas de turma, dão ordens aos bixos para que formem um fila no corredor. Minha confusão aumenta ao verificar que os bixos obedecem, submissos como gados em direção ao matadouro. Em seguida, Klinger e Tadao ordenam que eles se movimentem e caminhem em fila indiana rumo do saguão de entrada. E os bixos se precipitam incontinenti. Garotos e garotas de classe média, instruídos, inteligentes, sacados, vão andando como prisioneiros de guerra, tangidos pela voz de comando de Klinger e de Tadao, um Tadao diferente do japonês caladão que conheço das aulas. Em segundos todos somem no saguão e logo estarão na Avenida Paulista, onde farão pedágio nos faróis.
Não é que eu não entenda a liturgia do trote. Compreendo que, para o veterano que já foi bixo, e principalmente para o próprio bixo, trata-se de uma etapa da vida que se inaugura. E que merece ser celebrada de todas as formas possíveis e ao alcance da fértil imaginação juvenil. Entendo a carga de adrenalina que esse momento comporta. Ou pelo menos tento entender que, para um veterano, naquele momento, esse rito é tão essencial quanto o ar que ele respira. Ainda que cenas de trote sempre me façam lembrar do calouro de medicina que morreu afogado na piscina da USP durante uma festa de recepção aos novatos, anos atrás. Aquele episódio ficou marcado como o extremo de estupidez a que esse tipo de celebração pode chegar.
O motivo da minha reserva diante de toda aquela agitação, no entanto, tem outra razão. Não pertenço à geração de Klinger e Tadao. Eles devem ter entre 18 e 19 anos. São recém-egressos do ensino médio, como a maioria dos alunos da minha turma. Pertencem à safra de universitários que já nasceu com bits e bytes em seu DNA. A geração saúde, para a qual o uso da camisinha se erige tão natural quanto vestir a cueca ou a calcinha depois do banho. A geração politicamente correta, para a qual, salvo exceções, constitui grave heresia transgredir as regras, desrespeitar minorias, embora possuam suas próprias regras de transgressão. Vão à parada gay sem serem homossexuais. Votam no Lula sem rezar pela cartilha de Marx. Participam da passeata pela paz por honra da firma, apenas porque é in bradar na Avenida Paulista pela paz. Cultivam o espírito gregário, no qual é quase uma ofensa se destacar ou criar conflitos.
Quanto a mim, tenho 40 anos. Nunca rasparam o meu cabelo por ter passado em vestibular na vida. Nunca fiquei nos faróis cobrando pedágio dos motoristas. Não pintaram meu rosto com o nome do curso ou da faculdade. Nunca fiz parte do primeiro time da sala em qualquer curso da minha atribulada vida escolar – minha timidez e minha inépcia para qualquer tipo de liderança jamais permitiram. Sou o estranho no ninho. Quase um intruso. Minha folha corrida inclui um casamento de 18 anos, uma filha de 14, dois anos no curso de Letras na USP, um emprego de editor numa editora de São Paulo e quatro livros publicados, o mais rumoroso deles um relato autobiográfico sobre a minha experiência como portador do vírus da Aids.
Não é difícil concluir que existem mais mistérios entre mim e a geração de Klinger e Tadao do que a vã diferença de idades. Há um hiato abissal de vivências entre nós. Uma diferença de espírito de época. Tive a idade deles na década de 1980, a famigerada década perdida. Vivi ecos de 1968, da contracultura. Fui atingido pelos estilhaços dos anos de chumbo da ditadura militar. Nesse período, os punks dominavam a cena musical. A guerra fria ainda respirava. Ter atitudes radicais era um ato bem visto. Os códigos eram outros.
No dia seguinte, terça-feira, lá estão eles novamente, Klinger e Tadao, dando ordens aos bixos, como se fossem dois generais linha-duras dos livros do Elio Gaspari. E lá estão também os bixos, prontos a recebê-las. Só que dessa vez meus colegas de turma querem fazer diferente. Dado o meu ar provecto, pedem que eu entre na sala dos novatos e me apresente como professor ad hoc. Reluto.
– Ninguém vai desconfiar – insiste Klinger.
– Pô, Samir, você tem pique de professor – incentiva Jonas.
– Entra lá e diz que você é o Arbex – pede Jaime de modo maroto, fazendo referência ao professor José Arbex Jr., um dos mais conceituados e controvertidos da faculdade.
Nem parece que Jayme é médico, que tem 36 anos e que já foi casado. Depois de mim, é o mais velho da turma. Mas um dos mais traquinas e inquietos em sala. Somos praticamente da mesma geração.
Meu recato, no entanto, me impede de participar da brincadeira. Os alunos até forçam a barra, chegam a me apresentar como o professor Samir, que vai dar aulas de português. Cogito de entrar no jogo, mas volto atrás. Não me vejo representando aquele papel. Mesmo com muitos bixos já me olhando com a reverência com que se olha para um professor, o que me deixa bastante encabulado. Por uma fração de segundos, tenho a impressão de que, se entrasse na sala, me apresentasse como o professor de português e escrevesse na lousa uma extensa lista de livros que os alunos devessem comprar ao longo do ano, eles a copiariam em seus cadernos sem questionar nada.
Naquele dia, restrinjo-me a conversar na cantina, colocar as novidades em dia, me inteirar das novas matérias e dos novos horários. Depois, vamos todos para o Puppy, o bar em que a moçada costuma se reunir – e do qual não gosto, prefiro o Café Creme ou o Prainha Paulista. Todos, quero dizer: o Jaime, o Sidney, a Adriana, o Diego, a Nádia, o Fini, o Felipe, a Renata, o Jonas – meio que o pessoal mais próximo, aqueles com quem mais converso, só faltaram a Flávia e a Eliane.
A conversa flui relaxada e informal. Nada de grandes temas. Fazemos planos de assistir a alguns filmes – planos que no primeiro ano tinham ficado só na promessa. De nossa mesa, assistimos à cena mais comum naqueles dias: uma turma de bixos ser feita de gato-sapato na mesa ao lado por veteranos sedentos de sangue. Definitivamente, não está em mim aquilo. Mas fico pensando. Não descarto a idéia de fazer um tour de force e participar da farsa da sala de aula no ano seguinte. Quem sabe? Era um trote até que espirituoso.
(Texto escrito em março de 2003)