sexta-feira, 6 de maio de 2011

Semana de trote

Março de 2003. Início do ano letivo na faculdade Cásper Líbero. Segunda-feira. Os corredores estão movimentados. Os alunos se reencontram depois de quase três meses de férias. Trazem os semblantes leves, livres da preocupação com trabalhos, provas e seminários. O clima é de confraternização. Há uma profusão de beijos, abraços e olhares ávidos de novidades. Grupos se formam e se desfazem como por geração espontânea. O cheiro de cigarro impregna o ar do corredor.
Estamos na semana de trote. As aulas deviam ter começado há uma semana. Mas no Brasil, como em muitos países, é sagrado: os primeiros dias de aula são reservados à recepção dos chamados “bixos”. A diretoria tolera. Os professores respeitam. Os próprios bixos aceitam o trote como um rito de passagem necessário. Os cabelos raspados de improviso nos corredores da faculdade parecem conferir a eles o mesmo status que o primeiro beijo, o primeiro namorado ou namorada, o primeiro carro, a perda da virgindade, o primeiro emprego. Com o direito garantido a, no ano seguinte, na condição de veteranos, poderem aplicar as mesmas humilhações nos bixos que chegarem.
De onde estou, observo tudo com reserva. Além do caderno de 200 páginas com ilustrações do Dilbert, que uso desde o primeiro ano, trago comigo o livro do Elio Gaspari, A ditadura envergonhada, que peguei na biblioteca. Todos que me cumprimentam, ao reconhecerem a capa azul do primeiro volume, fazem referência à obra:
– Legal, você está lendo?
– Esse livro parece ser bom, não?
Faço que sim com a cabeça, embora ache o livro um pouco chato – uma enfiada de nomes de generais e de patentes militares, assunto pouco palatável. Mas concordo que é preciso saber como eles se articularam para atarantar por mais de duas décadas nossa já atarantada vida republicana.
Felipe me conta que lera os dois volumes nas férias. Jaime diz que pretende lê-lo em breve. Adriana também, assim que terminar um livro do Caco Barcelos. Sidney, por sua vez, mostra com entusiasmo a alentada biografia de Kurt Cobain que está devorando. Faço cara de conteúdo. Não sou muito versado em Nirvana. Meu último ídolo do rock foi Freddy Mercury. Devo estar defasado de há pelo menos uma década em matéria de rock. Mesmo assim, congratulo-o pela leitura. Biografias estão entre os meus gêneros preferidos.
Sou aluno do 2º JO D. Quero dizer, do segundo ano de jornalismo, turma D. Agora, um veterano. Mas, para mim, todo aquele ritual a que assisto entre curioso e contido não faz muito sentido. Não entendo muito quando Klinger e André Tadao, meus colegas de turma, dão ordens aos bixos para que formem um fila no corredor. Minha confusão aumenta ao verificar que os bixos obedecem, submissos como gados em direção ao matadouro. Em seguida, Klinger e Tadao ordenam que eles se movimentem e caminhem em fila indiana rumo do saguão de entrada. E os bixos se precipitam incontinenti. Garotos e garotas de classe média, instruídos, inteligentes, sacados, vão andando como prisioneiros de guerra, tangidos pela voz de comando de Klinger e de Tadao, um Tadao diferente do japonês caladão que conheço das aulas. Em segundos todos somem no saguão e logo estarão na Avenida Paulista, onde farão pedágio nos faróis.
Não é que eu não entenda a liturgia do trote. Compreendo que, para o veterano que já foi bixo, e principalmente para o próprio bixo, trata-se de uma etapa da vida que se inaugura. E que merece ser celebrada de todas as formas possíveis e ao alcance da fértil imaginação juvenil. Entendo a carga de adrenalina que esse momento comporta. Ou pelo menos tento entender que, para um veterano, naquele momento, esse rito é tão essencial quanto o ar que ele respira. Ainda que cenas de trote sempre me façam lembrar do calouro de medicina que morreu afogado na piscina da USP durante uma festa de recepção aos novatos, anos atrás. Aquele episódio ficou marcado como o extremo de estupidez a que esse tipo de celebração pode chegar.
O motivo da minha reserva diante de toda aquela agitação, no entanto, tem outra razão. Não pertenço à geração de Klinger e Tadao. Eles devem ter entre 18 e 19 anos. São recém-egressos do ensino médio, como a maioria dos alunos da minha turma. Pertencem à safra de universitários que já nasceu com bits e bytes em seu DNA. A geração saúde, para a qual o uso da camisinha se erige tão natural quanto vestir a cueca ou a calcinha depois do banho. A geração politicamente correta, para a qual, salvo exceções, constitui grave heresia transgredir as regras, desrespeitar minorias, embora possuam suas próprias regras de transgressão. Vão à parada gay sem serem homossexuais. Votam no Lula sem rezar pela cartilha de Marx. Participam da passeata pela paz por honra da firma, apenas porque é in bradar na Avenida Paulista pela paz. Cultivam o espírito gregário, no qual é quase uma ofensa se destacar ou criar conflitos.
Quanto a mim, tenho 40 anos. Nunca rasparam o meu cabelo por ter passado em vestibular na vida. Nunca fiquei nos faróis cobrando pedágio dos motoristas. Não pintaram meu rosto com o nome do curso ou da faculdade. Nunca fiz parte do primeiro time da sala em qualquer curso da minha atribulada vida escolar – minha timidez e minha inépcia para qualquer tipo de liderança jamais permitiram. Sou o estranho no ninho. Quase um intruso. Minha folha corrida inclui um casamento de 18 anos, uma filha de 14, dois anos no curso de Letras na USP, um emprego de editor numa editora de São Paulo e quatro livros publicados, o mais rumoroso deles um relato autobiográfico sobre a minha experiência como portador do vírus da Aids.
Não é difícil concluir que existem mais mistérios entre mim e a geração de Klinger e Tadao do que a vã diferença de idades. Há um hiato abissal de vivências entre nós. Uma diferença de espírito de época. Tive a idade deles na década de 1980, a famigerada década perdida. Vivi ecos de 1968, da contracultura. Fui atingido pelos estilhaços dos anos de chumbo da ditadura militar. Nesse período, os punks dominavam a cena musical. A guerra fria ainda respirava. Ter atitudes radicais era um ato bem visto. Os códigos eram outros.
No dia seguinte, terça-feira, lá estão eles novamente, Klinger e Tadao, dando ordens aos bixos, como se fossem dois generais linha-duras dos livros do Elio Gaspari. E lá estão também os bixos, prontos a recebê-las. Só que dessa vez meus colegas de turma querem fazer diferente. Dado o meu ar provecto, pedem que eu entre na sala dos novatos e me apresente como professor ad hoc. Reluto.
– Ninguém vai desconfiar – insiste Klinger.
– Pô, Samir, você tem pique de professor – incentiva Jonas.
– Entra lá e diz que você é o Arbex – pede Jaime de modo maroto, fazendo referência ao professor José Arbex Jr., um dos mais conceituados e controvertidos da faculdade.
Nem parece que Jayme é médico, que tem 36 anos e que já foi casado. Depois de mim, é o mais velho da turma. Mas um dos mais traquinas e inquietos em sala. Somos praticamente da mesma geração.
Meu recato, no entanto, me impede de participar da brincadeira. Os alunos até forçam a barra, chegam a me apresentar como o professor Samir, que vai dar aulas de português. Cogito de entrar no jogo, mas volto atrás. Não me vejo representando aquele papel. Mesmo com muitos bixos já me olhando com a reverência com que se olha para um professor, o que me deixa bastante encabulado. Por uma fração de segundos, tenho a impressão de que, se entrasse na sala, me apresentasse como o professor de português e escrevesse na lousa uma extensa lista de livros que os alunos devessem comprar ao longo do ano, eles a copiariam em seus cadernos sem questionar nada.
Naquele dia, restrinjo-me a conversar na cantina, colocar as novidades em dia, me inteirar das novas matérias e dos novos horários. Depois, vamos todos para o Puppy, o bar em que a moçada costuma se reunir – e do qual não gosto, prefiro o Café Creme ou o Prainha Paulista. Todos, quero dizer: o Jaime, o Sidney, a Adriana, o Diego, a Nádia, o Fini, o Felipe, a Renata, o Jonas – meio que o pessoal mais próximo, aqueles com quem mais converso, só faltaram a Flávia e a Eliane.
A conversa flui relaxada e informal. Nada de grandes temas. Fazemos planos de assistir a alguns filmes – planos que no primeiro ano tinham ficado só na promessa. De nossa mesa, assistimos à cena mais comum naqueles dias: uma turma de bixos ser feita de gato-sapato na mesa ao lado por veteranos sedentos de sangue. Definitivamente, não está em mim aquilo. Mas fico pensando. Não descarto a idéia de fazer um tour de force e participar da farsa da sala de aula no ano seguinte. Quem sabe? Era um trote até que espirituoso.
(Texto escrito em março de 2003)

segunda-feira, 14 de março de 2011

Da natureza do filho da puta (conto - abril de 2001)

Prometi que ligaria para o noivo dela e contaria tudo. Deixei o recado de manhã cedinho na caixa postal do seu celular. Fui curto e grosso: “seu noivinho vai saber quem você é”. Depois fui tomar banho. Tinha um dia duro pela frente.
Não me considero um cara do mal. No cinema, costumo chorar, e sempre dou caixinhas generosas a garçons, frentistas e flanelinhas. Só fiz mal a quem foi filho da puta comigo. Ou com quem é filho da puta por natureza. Sujeitos que já nascem com má índole. Sacanas. Pústulas. Biltres. Pelintras. Essa corja eu não perdoo.
Mas ela não. As coisas aconteceram de um modo cruel para nós, e eu não deixei de me sentir traído pela forma como tudo terminou. Mas daí a considerá-la filha da puta ia uma enorme distância.
Quando desliguei o chuveiro, já sabia que não cumpriria minha nociva promessa. Me vesti, penteei o cabelo, limpei a lente dos óculos, aspergi desodorante. Gosto da sensação de catarse que o desodorante proporciona, como se me purificasse das mais inconfessáveis transgressões. Tomei café com o espírito apaziguado, embora me doessem algumas lembranças.
No metrô, fui ruminando pensamentos. Tudo tinha ocorrido por culpa minha, eu tinha a decência de fazer esse mea culpa. Se não houvesse cedido aos seus encantos quando ela me assediou na sala de aula onde a conheci, nada daquilo teria acontecido.
Uma amiga pressagiou o perigo que me rondava. “Toma cuidado”, ela me advertiu, “que essas garotas costumam deixar o cara apaixonado e depois caem fora na maior”.
Sem dúvida que era um conselho sensato. Mas eu já me encontrava por demais envolvido com a ninfeta, e as palavras da minha amiga serviram apenas para que eu me sentisse mais desafiado a contrariar seus sábios augúrios.
Em vez disso, uma reflexão involuntária começou a fazer eco na minha mente. A mente humana é uma coisa extraordinária. Quando concentramos o pensamento em algo, não temos noção do grau de detalhe a que podemos descer.
Eu me via agora dominado por uma obsessão que me acenava como um insólito alento. Comecei a relacionar mentalmente os filhos da puta com quem já tivera contato na vida. Crápulas, velhacos, pulhas, calhordas. É óbvio que, para isso, eu teria de estabelecer um critério. Não queria cometer o pecado da generalização.
Saí da estação com o meu plano já traçado na mente e fui agregando detalhes. Assim que chegasse à empresa, faria um esboço, para não perder a essência da ideia. Porque era uma ideia tão sutil e de contornos tão débeis, que qualquer descuido causaria uma perda irreversível na fidelidade de sua concepção.
Esse interesse repentino pelos filhos da puta fez com que me esquecesse por completo do que fizera pela manhã. Sou muito impetuoso quando assaltado por uma ideia que julgo espirituosa. E muito obtuso também. Penso que os grandes gênios da ciência, ao conceberem seus inventos, foram movidos por ímpetos semelhantes ao que me tomava naquela manhã. Imagino Tomas Edison ao sentir em si o germe da ideia da lâmpada. Einstein, ao receber o insight da relatividade. Arquimedes, no instante em que gritou "eureka!". De modo que foi com sobressalto que, ao atender o telefone, ouvi a voz cheia de ira da minha ex-namorada perguntando se eu teria coragem de fazer aquilo.
Demorei a entender a que ela se referia. Mas logo me lembrei do recado que deixara em sua caixa postal e no ato me recompus. Sou muito pragmático quando quero.
Resolvi valorizar minha derrota e disse-lhe que sim, que iria ligar para o noivo dela e dizer que nós tivéramos um tórrido caso de amor.
Ao ouvir isso, a ira dela multiplicou-se. Me chamou de covarde, disse que eu não era homem e que agora sim eu revelava a minha verdadeira face.
Eu não estava interessado na opinião dela sobre mim, agora que tudo tinha acabado. Além disso, estava inteiramente voltado para o rascunho que já começara a fazer dos mequetrefes que conhecera em vida. Pedi a ela que me ligasse na hora do almoço, ao meio-dia.
Não sei se foi o sobressalto por ouvir sua voz, ou a expectativa para a conversa que teríamos mais tarde. A esperança é traiçoeira. Dá-nos ilusões muitas vezes falsas sobre fatos que já estão definidos no plano das intenções. Eu já estava com o meu destino selado e não sabia. E a obsessão com que me entregara àquele esdrúxulo exercício mental de relacionar os patifes e os infames nada mais era do que um sintoma de que no fundo tinha consciência de que havia me transformado na ponta prejudicada daquele triângulo amoroso.
Sei que, depois que desliguei o telefone, não consegui mais dar com o sentido da ideia que me assaltara no metrô. Que se fodessem os filhos da puta!, era o que eu pensava agora. Com que intuito iria relacioná-los numa folha de papel?
Trabalhei em harmonia aquela manhã. Minha produção foi boa.
Ao meio-dia ela ligou. Ainda estava furiosa, mas primeiro queria me ouvir. Então eu lhe disse que ficasse tranquila: eu não iria ligar para o noivo dela. Ela bem que merecia, mas eu não iria fazer isso. Não prejudicaria a vida dela, nem a dele (e nem a minha, mas isso eu não falei para ela). Pois eu podia ser tudo, arrematei, mas se tinha uma coisa que eu não era, era um filho da puta.
Ela ouviu tudo calada, e pude perceber seu alívio com a minha atitude. E, antes de desligar, em tom conciliador, disse que sabia que eu não faria nada daquilo. Que sabia que eu não era um filho da puta.
Sem ter mais o que conversar, nos despedimos. Desejei a ela paz em sua vida. Ela retribuiu, dizendo que desejava o mesmo para mim. Foi a última vez que conversamos. Depois fui almoçar, que eu vinha me alimentando muito mal ultimamente.

terça-feira, 8 de março de 2011

Funduras - conto (c.1987)

Eu só pude entendê-la por completo quando a vi no caixão, o rosto duro, as narinas atochadas de algodão, os olhos bistrados, como a censurar-me por não tê-la amado como devia em vida, um fio de sangue, pálido feito mostarda aguada, a escorrer pelo canto da boca, a pele calcinada, as unhas roxas. Em torno, fantasmas. Era de manhã.
Depois que o corpo desceu ao jazigo e a sepultura foi chumbada, espantei-me com a alegria que as sobras da manhã me prometiam, apesar de. Saí caminhando sozinho, deixei os fantasmas para trás e percorri toda a calçada de muro branco do cemitério. Depois de tudo, o que mais queria era andar.
O vento que soprava era um acinte. Roçava-me o rosto, arrastava pensamentos, lembranças, como se fossem correntes. Os pardais aterrissavam em bando na fronde das árvores esquálidas. Um sol já alto me aquecia. Ciganear pelas ruas do bairro desconhecido.
Por muito tempo não quis encontrar gente, deparar rostos. Procurei as ruas mais desertas, as vilas mais recônditas, viadutos sujos e anônimos, até chegar a uma praça, o mato crescendo entre as frestas no cimentado, formigas alheias a tudo. Perdi a noção das horas. Espraiar o olhar e não pensar em nada.
Não sei quanto tempo ali sentado, pensando nela, agora envolvida no mistério. Estranho como tudo mudou, e o que antes era, agora não é, e o que antes parecia, agora não parece. Podíamos ter sido, não fomos. Podíamos ter feito, não fizemos. Podíamos ter vivido, não vivemos. Nunca mais a esperança de viver o que nunca vivemos.
Fazia calor e as sobras da manhã iam se esmaecendo. A vida acordava aos poucos. Era preciso acordar o resto de vida em mim. Pensar cores brancas, a cal das paredes, a luz do sol entrando pela fresta da memória, risadas soltas, gargalhadas, uma frase que ficou para sempre, outra que se perdeu, preciosa, passos na rua numa noite fria, uma reza, o desvelo à noite no escuro do quarto, uma esperança perdida, o corpo branco estirado no corredor, iluminado de juventude e do sol que batia, a vida, a vida.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

A senhorinha da livraria (crônica - janeiro 2011)

Já experimentei os mais díspares sentimentos em relação a ela: raiva, piedade, irritação, exaspero. Atualmente ando na fase da complacência e espero que este seja o definitivo.
Acontece sempre: mal ponho os pés na livraria e já pressinto seu vulto caminhando na minha direção. Reconheço aquele vulto pelos passos claudicantes, ritmados pela picada de sua bengala contra o chão.
Sou um frequentador chato de livraria. Quase nunca tenho em mente um livro para comprar. Mas raramente deixo a livraria sem um exemplar debaixo do braço. Gosto de assuntar aleatoriamente o que está exposto. Folhear, verificar tradutor, projeto gráfico, capa, tamanho da letra. Gosto sobretudo de ser surpreendido com aquele romance que procurava há décadas oferecido a preço módico. Ela, contudo, parece não entender minhas peculiaridades. Se aproxima e lança a pergunta que me faz há pelo menos quatro anos:
– Já encontrou o livro que procura, senhor?
– Obrigado, estou dando uma olhada geral – é a minha resposta de algibeira, dada também há pelo menos quatro anos.
Não é possível que já não tenha gravado minha fisionomia. O hábito, porém, é mais forte que ela. Já ocorreu de, no mesmo dia, ela esquecer que já havia me abordado e me interpelar novamente, com o mesmo ar respeitoso e simpático.
Minha resposta não é de todo insincera. Tampouco indelicada. Mas também não é uma resposta precisa. “Dar uma olhada geral” é uma expressão distante do caráter de ritual que confiro às minhas incursões às livrarias. E antes que identifique o sentimento que me toma dessa vez, ela se afasta, deixando no ar a frase com que sempre conclui a abordagem:
– Pois não, fique à vontade.
De vez em quando ela muda o script e arrisca um palpite:
– Já leu este? – diz, pegando o primeiro best seller que vê na prateleira.
– Já sim, muito bom – minto, para não alongar a conversa.
Ela então se afasta, com a clara satisfação do dever cumprido estampada no rosto.
De tanto ouvi-la proferir a mesma pergunta, deduzo que seja uma funcionária de honra da livraria, ou algo que o valha. Deve ter por volta de 80 anos e, pelo modo elegante como se desloca e interpela os clientes, presumo que, por vários anos, tenha sido uma eficiente gerente da loja, dessas que dedicam a vida à empresa – fato cada vez mais raro no mundo de hoje.
Se minhas hipóteses estiverem certas, acho louvável a atitude da livraria. Precisamos de gente humana no atendimento, principalmente em se tratando de livraria. Livro não é um Grill George Foreman, xampu anticaspa ou ração para cachorros, como nos querem fazer crer os diretores de marketing. É um produto simbólico, com repercussão social.
De todo modo, se a simpática senhora mais atrapalha do que ajuda, ao menos é de uma educação irretocável, coisa também cada vez mais rara hoje em dia. Com a vantagem de que fala me olhando nos olhos, não usa de gerundismo, não me chama de “chefe”, “patrão”, “campeão”, “grande” e nem diz que determinado livro é “show de bola”.
Certa feita, num dia de má veneta, ao ser abordado por ela, resolvi desafiá-la.
– Já encontrou o livro que procura, senhor? – ela veio com seu mantra.
– Ainda não – devolvi, com ar maroto. – Estou procurando o novo livro do Nicolau Sevcenko. A senhora sabe em que prateleira posso encontrá-lo?
– O senhor, por favor, fale com a vendedora – ela respondeu, fleumática como uma esfinge grega, apontando uma das atendentes.
Resignei-me, complacente e desarmado, e fui falar com a vendedora.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

A arte de não cumprimentar

Numa de suas crônicas, o escritor Antônio Prata maldisse as pessoas que não nos esperam no elevador, deixando-o fechar na nossa cara pelo fortuito prazer de desfrutar por alguns segundos de dois ou três metros quadrados de solidão. O tema, entre tantos outros da vida pós-moderna, parece incomodá-lo.

A mim, que já tive o elevador fechado na cara algumas vezes, essa inexplicável descortesia não chega a incomodar. O que me incomoda são as pessoas que não cumprimentam. Incomodar, aliás, talvez não seja o verbo mais adequado; melhor seria dizer que me causam uma espécie de perplexidade surda. O fato me é tão incompreensível que eu poderia classificar as pessoas de acordo com o modo como não cumprimentam.

O tipo mais comum é aquele que só cumprimenta dependendo das circunstâncias. Por exemplo, quando ele topa com você na saída do elevador ou na esquina de um corredor. Não há como fugir, e o não cumprimento ficaria muito evidente. Então ele solta aquele “tudo bem?” automático, só para não ficar mal no filme.

É o mesmo tipo que, na fila do cinema (principalmente se for um filme da Mostra), ao perceber que você vai assistir à mesma película que ele, finge que não o vê e até procura tornar a coisa natural, olhando acintosamente para todos os lados, inclusive para o seu, para dissimular uma possível distração. Se você o interpelar no dia seguinte, ele se sairá com o indefectível álibi da distração.

Mais esfarrapada do que a desculpa da distração, porém, é a batida alegação de não se enxergar de longe – e nem de perto, por supuesto. Pode até ser, nunca se sabe. Mas em geral você sabe quando a pessoa o viu e disfarçou fingindo que não. É quando o seu olhar bate no fundo do olhar da pessoa e o olhar da pessoa bate no fundo do seu. É coisa de milésimos de segundos. É sutil. É fugidio. Mas você sabe.

Não é incomum, entretanto, que a mesma pessoa que o ignorou no hipermercado ou no Habib´s o cumprimente efusivamente no dia seguinte, no toillet da empresa – o que certamente o deixará desconcertado, cristalizando em sua alma a ideia de que o mundo mudou e você não tem mais elementos para compreendê-lo.

Você sai do toillet atarantado e se perde num emaranhado de conjecturas. As pessoas não têm lógica, você conclui. Umas agem assim porque são tímidas ou inseguras, o que, nestes casos, soa até como atenuante. Outras porque se consideram superiores àqueles aos quais não dirige o olhar, aos quais não estende sequer um meneio de cabeça. Outras, ainda, por questões econômicas, raciais, estéticas, sexuais, políticas, vai saber. Ou senão por aquela antipatia gratuita que, como a gripe, nos acomete a todos, não importa a classe social.

Obviamente que ninguém é obrigado a cumprimentar quem não queira. O cumprimento, no atacado, é um gesto de camaradagem, de identificação; no varejo, um gesto de educação, de civilidade. E admito minha faceta Woody Allen, de neurótico assumido, ou drummondiana, de ser mais um gauche na vida, ao prestar atenção nessas filigranas do cotidiano e ainda escrever sobre elas.

Desconfio, contudo, que nesses tempos de individualismo exacerbado, não se cumprimenta simplesmente porque não se enxerga o outro. Porque o outro só existe na medida em que se precisa de algum favor dele ou quando o outro se interpõe entre nós e nossos planos imediatos. Neste caso, principalmente, não temos saída: seremos obrigados a enxergar o outro. Não para cumprimentá-lo, obviamente, mas para o eliminarmos sem ruídos de consciência, caso ele insista em permancer no nosso caminho

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Lea T.

Gostei muito da entrevista da Lea T., a modelo transexual que é filha do ex-jogador do Atlético MG, Sampdoria, São Paulo e seleção brasileira (copa de 1982), Toninho Cerezzo. Foi bom saber que ela tira de letra o preconceito e, principalmente, sei lá por que motivo, mas há um motivo, por confirmar (eu já tinha lido a respeito em outras publicações) que seu pai a apoia e a aceita.
Eu me lembro que, na década de 1970, quando, garoto ainda, lia avidamente a revista Placar, Toninho Cerezzo surgiu no Atlético de Minas, naquele time fantástico que tinha ainda Reinaldo, Paulo Isidoro, João Leite, Marcelo, etc. Nas excelentes matérias feitas por Placar, li a certa altura uma reportagem sobre o jovem Toninho Cerezzo, o craque das pernas aparentemente descordenadas, mas que já era então um médio volante ágil e ofensivo de rara habilidade (tanto que foi o titular de Telê na Espanha, alguns anos depois). Uma informação me ficou daquela matéria: a de que Toninho Cerezzo era filho de palhaço. Sim, palhaço, palhaço de circo. E que viera de uma família humilde. Hoje, revendo o rumo que sua vida tomou (depois do êxito como jogador, ele atualmente é técnico), e principalmente em vista dessa circunstância que a vida lhe ofereceu, vejo que nem tudo está perdido neste reino de hipocrisia e frivolidade em que se transformou o Brasil (e o mundo). Ainda existem pessoas que, embora humildes de formação, conseguem transpor aquela tênue linha da grandeza e da coragem de assumir a vida como ela é. E de se ancorar em sentimentos verdadeiros, independentemente do que o mundo pense. Li na Veja, há duas semanas, que Cerezzo disse amar seu filho (que para ele continuava a ser "o seu neguinho") não importando se ele fosse homem, mulher ou cachorro. É dessas declarações que compensam tudo de lastimável que lemos diariamente na imprensa a respeito das relações humanas no mundo comtenporâneo.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Semana agitada

Esta semana comecei numa nova função na Abril Educação. Qual?, não sei dizer ainda. O que sei é que minha rotina mudou. Da edição de livros, passei a uma maratona de reuniões com os editores de todas as áreas para a elaboração do catálogo do PNLD 2012. Não sei se é uma função permanente, mas estou gostando. Nova rotina, novas necessidades, novas habilidades. Enfim estou praticando um pouco de jornalismo. Tenho chegado em casa exaurido mas com a sensação de satisfação pelo dever cumprido a cada dia. Talvez isso tenha mudado em mim e eu não tenha me dado conta: viver a vida dia a dia, sem criar grandes expectativas. Fazer. Ir fazendo. Sem pensar muito. Astúcias da maturidade.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Joyce, twenty one

O pai do Chico Buarque, o sociólogo Sérgio Buarque de Holanda, quando lhe pediam para falar de si mesmo, dizia que era "apenas o pai do Chico". Era a manifestação desse amor incondicional dos pais, que faz com que não se importem de ficar em segundo plano em relação aos filhos.
Acho que atingi esse estágio. Minha melhor definição hoje seria esta: "sou apenas o pai da Joyce". Mas este "apenas" subverte o sentido do que quer dizer. Porque ser "apenas o pai da Joyce" significa muito. Significa que colocar alguém no mundo e contribuir para que se torne uma pessoa de alma leve pode ser a maior das aventuras, algo que mostra que a vida pode ser mais do que o mero jogo de ganhar e perder.
Lembrando de seu primeiro choro ainda na enfermaria do hospital e olhando pra ela agora, concluo que tudo valeu a pena. E que continua a valer. A Joyce fortalece a minha crença nas coisas bonitas e simples da aventura humana e me ensina a viver.
Te amo, Jó.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Fazia tempo que, às vésperas da convocação para a Copa do Mundo, não se criava polêmica tão candente sobre quais jogadores ir à Copa e quais não ir. Vou citar de cabeça, mas em 1974 a questão era sobre a ida ou não de Pelé, mas nesse caso a decisão cabia a ele, e não ao técnico Zagalo. Como sabemos, Pelé optou por não ir. Se sua decisão foi a mais acertada, é uma questão de interpretação. A discussão mais acalorada foi sobre o corte do médio volante Clodoaldo, herói de 1970, por contusão, me parece. Houve quem defendesse sua ida, mesmo machucado. Ainda na mesma copa, houve quem contestasse a convocação de Paulo Cesar Lima, que ainda não se tornara Paulo Cesar Caju, o jogador polêmico da época, junto com Afonsinho, que depois ganharia uma música de Gilberto Gil. E se a crônica paulista ficou feliz com o chamado de Ademir da Guia, muito criticou o técnico Zagalo por só escalá-lo, se me lembro bem, no jogo contra a Polônia, quando o título já tinha ido pro vinagre.
Em 1978 o grande injustiçado foi Paulo Roberto Falcão, bi-campeão pelo Internacional em 1975-6, um dos grandes craques do futebol brasileiro. E não conforta saber que a Argentina também cometeria heresia semelhante ao não convocar o garoto Diego Maradona, então com 18 anos de idade, afinal nossos hermanos ao menos levaram o título - daquele jeito que todos vimos, mas isto é outra história.
Em 1982 havia grande clamor pela convocação de Jorge Mendonça, magnífico meio do Guarani, que estava em grande forma, e de Marinho, ponta direita do Bangu. Mendonça era desafeto de Telê e por isso não foi, restringindo-se a fazer comercial de televisão, junto com Emerson Leão, outro preterido. Marinho deu lugar a Paulo Isidoro, pois Telê não era adepto de pontas. Outro craque que ficou fora dessa copa foi o já veterano Mário Sérgio, um dos grandes estilistas da história de nosso futebol. E as contusões impediram que um dos melhores jogadores do mundo naqueles anos, o ponta-esquerda Zé Sérgio, do São Paulo (ponta, sim, mas fora de série), pudesse fazer história. Em seu lugar foi Éder, então do Atlético Mineiro, que fez história do mesmo jeito.
Amanhã comento as polêmicas nas convocações de 1986 até nossos dias.

domingo, 2 de maio de 2010

Vou seguir o conselho de algumas pessoas próximas, principalmente da Naide, e me voltar para a literatura juvenil. É o que tem dado certo para mim nos últimos anos, sem grandes traumas. Por "sem grandes traumas" quero dizer, sem polêmicas. Sem contar que não atrai a afetação e a inveja das pessoas próximas, o que sempre traz uma energia negativa. A literatura para jovens é mais leve, mais oxigenada. Pode-se fazer boa literatura cultivando-a. A ida ao cinema para assistir "Alice" e a leitura de "O estranho caso do cachorro morto" já são indícios dessa busca pelo juvenil. Que sempre foi, eu sei disso, o melhor de mim. "O menino é o pai do homem", alguém já disse.